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Rio 3.5 Open: o modelo de IA da Prefeitura do Rio desmascarado

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O modelo de IA Rio 3.5 Open, lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, tornou-se o centro de uma polêmica tecnológica de repercussão internacional em menos de 48 horas após sua divulgação. O que era apresentado como uma solução inovadora de inteligência artificial desenvolvida localmente revelou-se, segundo investigações independentes, uma combinação matemática de dois modelos já existentes — sem o treinamento adicional que havia sido anunciado.

O que é o Rio 3.5 Open e quem o criou

O IplanRio, empresa pública de informática da cidade do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma família de modelos de linguagem de grande porte chamada Rio Open. A iniciativa foi apresentada pela primeira vez em abril deste ano, durante o III Ciclo do Sandbox.Rio, programa municipal voltado ao teste de tecnologias emergentes.

Em 12 de junho, o IplanRio publicou o Rio 3.5 Open, um modelo com 397 bilhões de parâmetros. A proposta era oferecer uma solução de IA de uso público, com licença permissiva MIT, acessível a outros órgãos governamentais e pesquisadores. O custo total declarado pelo município foi de R$ 500 mil.

O objetivo estratégico era reduzir a dependência de plataformas privadas e inserir o debate sobre soberania tecnológica no nível municipal — uma pauta que ganhou visibilidade imediata nas redes sociais, especialmente no X.

Por que o modelo chamou atenção nos benchmarks

Logo após o lançamento, entusiastas e especialistas em IA começaram a questionar como o Rio 3.5 Open alcançava resultados tão expressivos em avaliações como o IMOAnswerBench, chegando a superar o Qwen, modelo da Alibaba que teria servido de base para o projeto.

A suspeita cresceu rapidamente. Por se tratar de um modelo aberto, qualquer pessoa pode rodá-lo localmente e inspecionar seu comportamento — e foi exatamente isso que vários usuários fizeram.

Como o Rio 3.5 Open foi desmascarado

Ao remover os system prompts embutidos no modelo, pesquisadores independentes observaram que ele se identificava espontaneamente como “Nex, da Nex-AGI” — e não como um produto da Prefeitura do Rio. Essas instruções ocultas forçavam o modelo a adotar o nome “Rio” e a identidade institucional do município. Sem elas, a origem real emergia.

A investigação foi além. Pesquisadores analisaram os pesos do modelo camada por camada e encontraram uma colinearidade de 0,99 com uma combinação fixa de 60% do modelo Nex-N2-Pro e 40% do modelo Qwen3.5-397B em todas as camadas examinadas. Esse grau de correspondência matemática é estatisticamente impossível de ocorrer por coincidência em um modelo que tenha passado por treinamento real.

A conclusão da comunidade técnica foi direta: o que foi publicado era um merge bruto — uma fusão matemática simples dos dois modelos — sem qualquer etapa de treinamento adicional.

O problema com a falta de créditos

É importante contextualizar: tanto o Nex-N2-Pro quanto o Qwen3.5-397B foram publicados sob licenças de código aberto, o que permite que terceiros os modifiquem e redistribuam. Isso, por si só, não é irregular.

O ponto central da crítica não foi o reaproveitamento em si, mas a ausência de atribuição adequada aos modelos originais e a forma como o Rio 3.5 Open foi apresentado — como se fosse resultado de um processo de desenvolvimento próprio, incluindo a menção a uma técnica chamada destilação, que não teria sido aplicada na versão publicada.

A resposta do IplanRio e o pedido de desculpas

Ao longo do domingo seguinte ao lançamento, a página do modelo no Hugging Face recebeu uma nova descrição. O IplanRio reconheceu que a versão publicada era resultado de operações matemáticas de merge, sem treinamento do zero.

A equipe afirmou que o trabalho planejado envolvia uma etapa posterior de On-Policy Distillation — técnica em que um modelo combinado aprende a imitar as respostas de um sistema ainda mais potente. Porém, segundo o próprio órgão, o arquivo que foi ao ar era uma versão intermediária, anterior a essa etapa.

A explicação gerou ainda mais reações negativas. A narrativa de que um arquivo incorreto teria sido enviado por engano foi recebida com ceticismo por grande parte da comunidade técnica. Não há como confirmar, com base nas informações disponíveis até o momento, se a etapa de destilação chegou a ser iniciada ou concluída.

Por fim, o IplanRio emitiu um pedido formal de desculpas pela confusão gerada.

O que esse episódio revela sobre IA pública no Brasil

O caso do Rio 3.5 Open levanta questões relevantes sobre transparência no desenvolvimento de modelos de IA pelo setor público. Iniciativas governamentais nessa área são bem-vindas e necessárias — especialmente quando envolvem licenças abertas e redução de dependência tecnológica.

No entanto, a credibilidade dessas iniciativas depende diretamente da honestidade técnica na comunicação. Apresentar um merge como desenvolvimento original, omitir créditos e mencionar etapas metodológicas que podem não ter sido executadas são problemas que vão além de um erro de upload.

  • Transparência: modelos públicos precisam de documentação técnica clara e verificável.
  • Atribuição: o uso de modelos open source exige crédito explícito aos desenvolvedores originais.
  • Comunicação responsável: afirmações sobre benchmarks e metodologias devem ser sustentadas por evidências abertas à auditoria.

A velocidade com que a comunidade técnica identificou as inconsistências do Rio 3.5 Open é, em si, uma demonstração do valor da abertura: quando o código é público, a verificação independente é possível — e inevitável.

Perguntas frequentes

O que é o modelo de IA Rio 3.5 Open da Prefeitura do Rio?

O Rio 3.5 Open é um modelo de linguagem de grande porte com 397 bilhões de parâmetros lançado pelo IplanRio, empresa pública de informática do Rio de Janeiro, com o objetivo de oferecer uma solução de IA pública sob licença MIT. O custo declarado do projeto foi de R$ 500 mil.

Por que o Rio 3.5 Open foi criticado?

Pesquisadores independentes descobriram que o modelo era, na prática, uma fusão matemática de dois modelos já existentes — o Nex-N2-Pro e o Qwen3.5-397B — sem o treinamento adicional anunciado. Além disso, os créditos aos modelos originais não foram devidamente atribuídos.

Como os pesquisadores identificaram que o Rio 3.5 Open era um merge?

Ao remover os system prompts embutidos, o modelo se identificava como ‘Nex, da Nex-AGI’. Análises camada por camada dos pesos do modelo revelaram colinearidade de 0,99 com uma combinação de 60% Nex e 40% Qwen — padrão matematicamente incompatível com treinamento real.

O IplanRio admitiu o problema com o Rio 3.5 Open?

Sim. O IplanRio atualizou a descrição do modelo no Hugging Face reconhecendo que a versão publicada era resultado de um merge, e alegou que o arquivo correto — com etapa de destilação — não teria sido o enviado. A organização pediu desculpas pela confusão gerada.

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